26/11/2018

TECNOLOGIAS MOBILE SÃO ALIADAS NA PROMOÇÃO DA SAÚDE

Mudança de comportamento, consulta médica à distância e monitoramento remoto são algumas das apostas para o uso da tecnologia na promoção da saúde.

Mudança de comportamento, consulta médica à distância e monitoramento remoto são algumas das apostas para o uso da tecnologia na promoção da saúde. Um estudo publicado pela Goldman Sacks em 2015, por exemplo, aponta que estamos vivendo o início de uma revolução na saúde digital, sendo a primeira onda relacionada ao desenvolvimento de tecnologias que envolvem a mudança de comportamento do médico e do paciente. “É como se estivéssemos arranhando a superfície de uma pepita de ouro de grande valor. Temos muitas coisas vindo por aí”, adianta o médico executivo e cientista de dados, Marcelo Tournier.

Para a Goldman Sacks existem enormes oportunidades na saúde digital, principalmente na telessaúde, como é chamado o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) para oferecer serviços e cuidados em saúde à distância, sem precisar que o paciente se desloque para um consultório médico para ser atendido por um especialista. Outra tecnologia promissora é o monitoramento remoto, que permite aos profissionais de saúde acompanharem os pacientes de alto risco constantemente.

Nos últimos anos temos presenciado a disponibilização de tecnologias móveis cada vez mais avançadas e acessíveis, que possibilitam ao usuário conhecer informações de saúde que antes não eram possíveis. Aplicativos que ajudam as pessoas a mudarem comportamentos, como lembrar de beber mais água, estão entre os exemplos. Outro exemplo são os wearables, como as pulseiras com sensores que medem frequência cardíaca e atividade física, que informam o usuário sobre a qualidade do sono e ajudam na realização de programas de perda de peso, entre outras possibilidades. “Estas tecnologias possibilitam conhecer a realidade de cada individuo, permitindo atuar na prevenção de doenças e até mesmo evitar acidentes de trabalho. Isto porque sabemos que muitos acidentes são causados pelo excesso de sonolência e estas tecnologias podem apontar que a pessoa dormiu mal aquela noite”, destaca Tournier.  O acesso a informações de saúde e comportamentos do usuário possibilita que se faça uma gestão da saúde de forma bastante personalizada.

SESI possui centro de inovação em tecnologias para saúde
Foi o fato das tecnologias mobile terem o potencial de mudar comportamentos e, até mesmo, salvar vidas que o Serviço Social da Indústria (SESI) criou o Centro de Inovação SESI em Tecnologias para Saúde, que estuda ferramentas, metodologias e técnicas que podem melhorar a vida das pessoas. Sediado em Florianópolis (SC), o Centro está desenvolvendo plataformas com foco na prevenção de doenças crônicas e na melhoria da saúde e segurança no trabalho na construção civil. “O objetivo é que estas plataformas possam integrar diferentes ferramentas digitais para oferecer mais saúde para o trabalhador e mais segurança no ambiente de trabalho, em alta escala e com alto impacto”, explica o Gerente do Centro de Inovação SESI em Tecnologias para Saúde, Eloisio Andrey Bergamaschi.

O Guidoo é uma plataforma de saúde digital que tem como objetivo oferecer ao usuário o acesso a diferentes serviços que buscam auxiliar a melhoria da saúde e aumentar a qualidade de vida. A ferramenta é disponibilizada para empresas, que a oferece aos seus trabalhadores. “O diferencial do Guidoo é o serviço de telessaúde, que dá acesso a um coach (profissional da área de saúde) que ajuda o usuário a traçar e alcançar metas de melhoria da saúde, com quem ela pode criar um vínculo”, explica Bergamaschi. O Guidoo possui também um aplicativo de celular, no qual o usuário responde um questionário para identificar o seu perfil, recebe dicas de saúde e acompanha o cumprimento de suas metas (alimentação, exercício, prevenção, relacionamento, equilíbrio). O Guidoo ainda possibilita a participação de desafios de saúde em grupo. Em sua fase piloto, a plataforma foi utilizada por cerca de 120 trabalhadores de três empresas. “Estas empresas fizeram parte da cocriação da ferramenta, o que garantiu que ela estivesse adequada às necessidades das empresas e seus trabalhadores”, conta Bergamaschi.
 
O Centro de Inovação SESI em Tecnologias para Saúde também desenvolveu o Seif, uma plataforma de monitoramento voltado à construção civil, que conta com ambiente web voltado ao empreiteiro, aplicativo para uso da equipe de segurança, EPI com wearables e totens voltados aos trabalhadores da obra. “Este produto tem como foco a redução de acidentes na construção civil. Um sensor no capacete alerta se o trabalhador está próximo à área de risco. Já no totem o trabalhador pode realizar mini capacitações de acordo com a etapa da obra”, explica Bergamaschi. O produto possibilita um amplo acompanhamento da obra. Ele permite, por exemplo, verificar a localização dos trabalhadores, alerta para necessidade de manutenção e/ou troca de máquinas e equipamentos de proteção, cadastrar tarefas e acompanhar o cumprimento delas e possui um checklist de normas e legislações relacionadas à obra. “O Seif possibilita o monitoramento dos riscos no ambiente de uma construção, e ajuda a identificar desvios e não conformidades de procedimentos e comportamentos de segurança”, completa o Gerente do CIS Tecnologias para Saúde.

Tecnologias podem reduzir custos
O desenvolvimento das tecnologias mobile voltadas para a saúde acontecem num momento onde vários países estão enfrentando o desafio do custo da saúde. Segundo a Goldman Sacks, o investimento nesta área pode gerar uma economia de mais de 300 bilhões de dólares para os Estados Unidos, país no qual o gerenciamento de doenças crônicas, por exemplo, é responsável por cerca de 1/3 de todos os gastos de saúde.

No Brasil a realidade também preocupa e o desenvolvimento de tecnologias móveis voltadas para promoção da saúde pode ajudar a frear o crescimento constante no consumo de bens e serviços de saúde. Segundo dados da Conta-Satélite de Saúde Brasil, 2010-2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar da crise econômica vivenciada no País, os gastos com saúde foram de R$ 546 bilhões em 2015, o equivalente a 9,1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Este valor pode atingir entre 20 e 25% do PIB em 2030, segundo estudo divulgado em 2017 pelo Instituto Coalizão Saúde (ICOS) e realizado pela McKinsey & Company. “Esse dado se torna ainda mais preocupante quando observamos que atualmente nossa medicina é muito cara e reativa. Ela usa tecnologias de alto custo para o tratamento de doenças crônicas, quando a doença não é mais curativa”, ressalta o médico executivo e cientista de dados Marcelo Tournier. “As doenças crônicas geram um custo enorme para a economia, e impactam na qualidade de vida, produtividade e longevidade das pessoas. Investir em tecnologias voltadas para a prevenção é primordial para mudarmos nosso cenário atual”, completa.

As empresas também têm sido impactadas e relatam reajustes médios de 30% no custo dos planos de saúde. As alternativas têm sido operar com planos de saúde de menor qualidade ou até mesmo deixar de oferecer este benefício para os seus colaboradores. Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar apontam que 281,6 mil pessoas deixaram de ter acesso a planos de saúde em 2017. Em três anos a redução foi de 3,1 milhões de usuários. “Estas pessoas passam a depender cada vez mais do Sistema Único de Saúde (SUS), que além de já estar sobrecarregado, tem seu orçamento congelado para os próximos 20 anos. Esta situação não se sustenta.”, comenta Tournier.

Investidores têm novo olhar para saúde
Por conta deste cenário preocupante, novos modelos de negócio têm sido discutidos, como clínicas e planos de saúde populares.  A tecnologia mobile também entra como uma aliada do usuário que busca cuidar da sua saúde e aumentar a sua qualidade de vida com baixo custo.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) corrobora com a Goldman Sacks, que aponta a saúde digital como uma grande oportunidade de investimento, e aponta que tecnologias digitais irão aumentar massivamente o volume de dados médicos disponíveis, fortalecendo o poder da análise de dados na tomada de decisão em matéria de saúde e podendo impactar na melhoria das condições de saúde e elevação da expectativa de vida.  “Estamos vivendo um ponto de virada, no qual os investidores passam a ter um olhar maior para tecnologias de baixo custo, alta escalabilidade e potencial de impacto em prevenção e mudança de comportamento das pessoas”, explica Tournier.

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